Nos últimos anos os corações de Filigrana tornaram-se moda, muitas vezes usados como ícone, souvenir português e associado ao significado da expressão “Viana é amor”.

Ao contrário do que se poderia pensar, o propósito da sua criação não foi para ser um símbolo de amor, mas sim um símbolo de dedicação e de culto do Sagrado Coração de Jesus.
Diz-se que terá sido a rainha D. Maria I que, grata pela “bênção” de lhe ter sido concedido um filho varão, mandou executar um coração em ouro, materializando assim a sua devoção.
Convencionou-se entregar-lhe Viana ao nome, mas ele não é exclusivo desta cidade. Na realidade, o uso do coração é, numa visão mais ampla, uma tradição minhota.
Historicamente a origem do coração anda em paralelo com a dos “brincos Rainha” e acredita-se que ter-se-á fomentado durante o reinado de D. Maria I, quando esta usou um par destes brincos numa ida a Viana do Castelo em 1852. Depois desta visita, popularizaram-se como símbolo de riqueza. Noutras zonas do Minho, o nome dos brincos é ainda conhecido como “à moda da rainha”, “de mulher fidalga” ou “mulher rica”.

Há quem sustente que o uso do coração se enraizou na cultura Minhota precisamente pela via religiosa e pela devolução ao Sagrado Coração de Jesus. Todas as ilustrações que conhecemos retratam sempre um coração visível do lado de fora e centrado a meio do peito como símbolo do amor universal, tal como se usa o Coração de Viana.

No Minho, a filigrana continua a estar associada a uma larga tradição: os “trajes de domingar”. O traje minhoto feminino é sempre complementado com diversas peças de ouro, incluindo colares e brincos que passam de geração em geração.

É claro que esta é apenas uma versão e ao longo dos anos foram-se construindo muitas versões explicativas da origem do coração, mas talvez a história/ lenda que mais gostei de ouvir foi-me contada justamente por uma Vianense. Como sabemos, Viana é uma cidade com uma grande relação com o mar e com a pesca. Quando os homens iam para o mar as mulheres ficavam em casa com o coração apertado porque não sabiam se o marido iria regressar, temendo aos perigos do mar. Assim, os homens oferecem às suas mulheres em dias especiais uma peça de ouro, de forma a compensar a sua dor e sofrimento quando estão ausentes. Por esta razão, todos os anos se celebram as Festas da Senhora da Agonia e numa das atividades da festa – a Mordomia – as mulheres de cada família saem à rua, onde mostram à cidade o ouro de cada família. Ouro esse que vai passando de geração em geração de mãe para filha.

No entanto, estas peças de ouro por serem fabricadas artesanalmente são extremamente caras e nem toda a gente as pode comprar. Esta foi uma das razões pelas quais a paixão pela filigrana me levou criar o projeto em gesso perfumado, procurando recriar o seu detalhe e delicadeza com o intuito de conceber um ambientador e simultaneamente uma peça de decoração.

A marca “agostinha” nasce com a finalidade de valorizar e perpetuar algo característico da cultura Portuguesa em séries de pequenos objetos acessíveis que podem ser adquiridos por qualquer cidadão da sociedade atual. Daí se justifique a contínua pesquisa e aperfeiçoamento das técnicas de produção com o objetivo de conseguir reunir um conjunto de aspetos numa peça com qualidade, mas a baixo custo. Partindo de materiais pobres, como o gesso, cada peça transporta consigo o conceito das peças tradicionais em ouro, diferenciando-se pela cor, pelo cheiro e pela confeção manual.